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Otávio era um cara não tão comum… um daqueles coitados que escrevem e lêem relativamente bem, mas têm que ralar o bucho numa empresa qualquer, e se foder com assédio moral… essas coisas que vocês já sabem. Vanessa era uma potência (é claro). Um vulcão. Uma mulher atômica, cheia de desejos, inquieta… É claro que ela era atriz… mas Otávio era quadrado… Um dia, eles tiveram o seguinte diálogo:

-Otávio, consegui um papel super legal, numa peça!

-Bacana! Que peça é?

-”Sexo, desvio e danação”, baseada num livro de história. Imagine!

-”Sexo, desvio e danação”, é um nome picante…

Vanessa, engoliu em seco… Eles já tinham conversado sobre ela fazer papeis muito fortes…

-Tem nudez? – perguntou Otávio.

-Sim… tem, mas…

-Tem cena de sexo?

-Sim…

-Você vai fazer alguma coisa assim?

Havia uma cadeira próxima. Vanessa deixou-se cair nela.

-Você me tolhe – disse ela.

-Você vai transar no palco? Vai ficar nua?

-Vou, Otávio, vou…

-Caralho!

-Você não escreve seus contos, seus livros?! Você escreve um monte de sacanagem e eu não digo nada!

-Não é a mesma coisa… Não adianta! São universos diferentes!

-É arte…

-Como é a cena que você vai fazer?

-Otávio, veja…

-Como é a cena que você vai fazer, desgraça?! – gritou Otávio.

Vanessa nunca o tinha visto daquela forma. Chegou a ficar assustada.

-É um papel… não sou eu…

-Se você não me disser como é essa porra desse papel, eu juro que nunca mais olho pra tua cara. Agora, fala! Diz como é a porra do papel!

Vanessa levou a mão ao rosto. Tinha-se tornado lívida e sua respiração tinha apertado.

-Olhe…

-Fala, Vanessa! Não enrola! Como é essa miséria desse papel?! Eu estou a um passo de nunca mais olhar pra você…

Vanessa então gritou, atalhando o namorado:

-Faço o papel de uma menina de família que é estuprada por oito rapazes, no período da idade média, depois faço uma prostituta e uma bruxa!

-E daí?

-E dai, o quê, seu idiota? Burro!

-Você fica nua? Os caras botam a rola de fora e encostam no seu rabo nu?

-Encostam… é um papel, seu burro! Não sou eu! É a personagem!

Otávio cerrou os punhos… irado… Vanessa, sempre que ficava nervosa e vermelha e gritava, ficava linda. O ódio dela, a forma como ela estourava, enchia Otávio de tesão, mas naquela noite, bom, naquela noite ele queria que ela virasse pó.

-Suma da minha frente – disse ele.

-O que?

-Suma, desapareça, senão eu te mato.

-Seu viado! Burro!

Otávio pegou Vanessa pelo braço e levou-a até a porta da rua.

-Suma, sua puta! Antes você fosse uma atriz pornô!

-Sabe o que é que você é?! – gritou Vanessa da calçada. -Um verme pequeno burguês, hipócrita, dissimulado, punheteiro, pau no cu!

-Não é a toa que você é doida por mim, sua vaca!

-Viado! Viado! Viado!

-Vá procurar um corno que fique batendo punheta enquanto você é enrabada por outro! E suma da minha frente, senão eu te mato!

Otávio bateu a porta com extrema força e entrou… Chorava. É claro que ele era doido por Vanessa. Ela era linda, inteligente, alegre, cheia de vida… mas ele não entendia aquele gosto dela de se expor tanto. Quando se conheceram ela já tinha feito um sem número de papeis assim… Mas, depois que passaram a namorar houve um acordo tácito (pelo menos foi isso que Otávio pensou) no qual ela iria fazer coisas mais amenas… Daí, de repente, a surpresa: um papel pra lá de ousado, mas que abriria muitas portas para ela… Otávio foi no armário da cozinha e pegou a garrafa de vodca. Tomou três doses direto do gargalo. Não tardou para sentir o efeito: algo como uma pancada na nuca. Depois levou a garrafa à boca de novo, e outra vez, e outra… Num dado instante, começou a ouvir batidas à porta. Eram batidas fracas… Chegou perto e ouviu a voz da namorada, baixinho: “vamos conversar… por favor, deixe-me entrar…” Otávio olhou para a garrafa e viu que ainda havia meio litro e ele estava muito, mas muito bêbado.

-Vá embora! – gritou ele.

-Você bebeu?! – respondeu Vanessa do outro lado.

-VÁ EMBORA, SUA PUTA! SUMA! PELO AMOR DE DEUS!

-Otávio… por favor… vamos conversar…

Otávio deu meia volta e foi até o quarto. Olhou para a parte de cima do guarda-roupas… Viu a caixa. Como era alto (tinha 1,85m) alcançou-a sem dificuldade. Ainda podia ouvir a voz de Vanessa vindo do lado de fora. Abriu a caixa. Pegou a escopeta e um cartucho. Carregou a arma e foi até a porta. Disse então, com a voz e os sentidos alterados:

-Vou contar até três, pra você sumir!

-Otávio…

-Um…

-Vamos…

-Dois..

-Conversar…

-Três!

Nesse exato momento, ele abriu a porta e disparou no rosto de Vanessa. Ele jamais esqueceria a cena: a cabeça da namorada esmigalhando, ossos, sangue e tecidos sujando toda a rua.

 

 

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4 Comments

  1. Sem dúvida sua melhor postagem, achei SENSACIONAL. Porque não a transforma num conto? Achei poética, engraçada e, acredite, absurdamente real.
    ” -Faço o papel de uma menina de família que é estuprada por oito rapazes, no período da idade média, depois faço uma prostituta e uma bruxa!” (viva o teatro !!)
    Parabéns, continuo seu fã.

  2. Bicho, muito obrigado pela generosidade… mais uma vez.
    Na verdade, esse post é uma espécie de resumo do resumo de um dos capítulos do meu terceiro livro…
    E já que você tocou no assunto, gostaria de expor aqui o meu nojo pela dramaturgia. Odeio teatro, sempre odiei, detesto, tenho nojo e cuspo em cima, e Otávio foi compreensivo até demais…

  3. Binho,
    Que bom que voltou a escrever. Sorte de nós, seus leitores, não? Nem avisa, não é?
    Tomei coragem e criei um blog pra mim também, sou filha de Deus rs

    Aparece lá,
    beijos

  4. Grande Madame Capitulina!!!!! Quanta Saudade de sua nobilíssima pessoa!!!! Noooooooosa!!!!! KKKKKKKKKKK… Olhe, estou voltando aos poucos, certo… E muito obrigado pelas mentiras: “Que bom que voltou a escrever. Sorte de nós, seus leitores…” Depois a gente acerta aquele gengibre…

    Abração garota, e que Deus te ilumine!!!!!!!!!! E se saia do teatro… é uma droga… é uma bosta…

    Sim! E mande pro meu e-mail o endereço do seu blog, que farei questão de postar coisas…


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