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A despeito do post logo abaixo, a despeito de toda essa coisa de esperança e tal… bom, nunca comi tanta água em minha vida. Tenho certeza absoluta que virei alcoólatra e isso me mata, me corrói, me pulveriza. Estou bebendo todo dia e não vejo uma perspectiva de pisar no freio. Quero muito deixar essa porra de lado, mas não consigo. Meu trabalho não é dos piores, mas é um cocô. Minha auto-estima só é melhor que a de um desempregado e um pouco melhor talvez que a de um gari ou coisa que o valha. Não quero parecer do tipo que reclama com a barriga cheia. Nunca passei fome, nunca precisei matar, roubar, sempre tive roupa, um teto, livros pra ler, etc. Mas é só pensar em um pouquinho mais, é só pensar em ter um sosseguinho além da conta, que tudo cai, tudo desmorona. O melhor momento do dia, pra mim, atualmente, é quando tomo o primeiro gole! Nossa, como isso é aterrorizante! Quando saio do trabalho, a primeira coisa que faço é me mandar para um bar. Fico sozinho, melancólico, amargurado, e, simultaneamente pensando até quando isso vai durar, até quando vou ter que batalhar para encontrar alguma alegria na vida no fundo de um copo. Contudo, ninguém se engane: essa alegria de boteco é muito triste, dá medo. A solidão aumenta tanto nessas horas, a vontade de deixar de viver brilha diante dos olhos… Duas coisas ainda me mantém vivo: uma é a falta de acesso a uma arma de fogo e a outra é a esperança de que alguma editora pegue meus livros para publicar. Acredito que se um dia conseguir viver como escritor, talvez eu até deixe de beber, ou beba menos. Mas é preciso que se entenda que não se trata de uma birra ou de um capricho pequeno burguês. A gente tem que se conformar com a comida no prato e com a cama quentinha, por que zezinho mora debaixo da ponte? A gente tem que agradecer e orar a Deus por não ter uma bosta de um câncer? A gente tem que se contentar por ter uma porra de um emprego aviltante, opressivo, escravizante, que esmaga sua mente criativa e não lhe dá quaisquer perspectivas de melhoria na sua qualidade de vida, por que com isso você compra roupa e pão? A gente (falo de homens e mulheres) têm que se conformar com qualquer pessoa que aparece na nossa vida? Essa última pergunta é séria. Caras como eu, reles assalariados, se fodem com as mulheres, de modo geral. Agora, com o alcoolismo lenhando o meu juízo não sei o que pode acontecer. Mais solidão, mais isolamento, mais tristeza, menos (ou nenhum) sexo… É por isso, e mais algumas outras coisas menos importantes (não sou sociólogo) que muitos homens, na minha situação, acredito, acabam se casando. E quase sempre é um com uma mulher sem graça, feinha, chata e burra. Falo pelos exemplos que vejo. Meus amigos e amigos desses amigos estão na faixa dos vinte aos trinta e cinco; se, por exemplo, dez deles se casaram, sete já se separaram, dois são muito infelizes e um vive mais ou menos. Os caras não são gênios, nem são exemplos clássicos de beleza física, não são também pessoas cem por cento agradáveis… mas vejo nos olhos desses sujeitos um amargor bem estranho. É como se o cara tivesse trocado de mãe. Ele simplesmente deixa de cumprir ordens da progenitora pra cumprir ordens de uma estranha. Falo isso, dentre outras coisas (repito, não sou sociólogo) por notar que até o sexo é regrado entre esse pessoal que se casa. Daí penso: “fulano casou-se com fulana sem um pingo de tesão. Que porra é essa?” Por que as mulheres adoram homens que não sentem tesão por elas? Por que as mulheres gostam dos homens que são frios perto delas? Quanto mais esses meus amigos e amigos desses amigos se mostram indiferentes, ausentes, distantes, mais suas companheiras tendem a querer estar perto deles! Nossa, se depender disso, não vou ficar com mulher nenhuma, e de fato é o que está acontecendo. Há outras coisas também. Penso no alcoolismo e me entristeço. Ninguém suporta quem bebe. Sou filho de um pai alcoólatra que odeio. Detesto-o são e bêbado nem se fala. É insuportável olhar aquela expressão… Tem uma música de uma banda chamada Ave Sangria (ótima banda – mas exatamente por ser ótima só lançou dois discos na década de setenta e sumiu) que diz assim: “…minha casa é o reino do mal, meu pai é um animal, minha mãe há muito que enlouqueceu, só resta eu…”, kkkkkkkkkk… Mas daí o cidadão casa e não muda muita coisa… Enfim, eu dou voltas. Falo uma coisa, depois falo outra, e embolo tudo… Não acho que ninguém deva ficar na casa dos pais. Muito pelo contrário. A pessoa tem de ganhar o mundo, é claro, mas buscando alegria, felicidade e amor, muito amor. Mas aonde estão essa alegria, essa felicidade, esse amor? No meu caso, ultimamente, tem sido no copo, e isso é uma merda tão grande. Preciso me espiritualizar, esse é o caminho. Mas como, se vivo pensando em me matar? Onde encontrar sentido para as coisas que nos cercam e amor na solidão? Onde encontrar aquela paz da infância que nos propiciava alegria em coisas muito simples, como empinar uma pipa ou andar de bicicleta? Eu escarafuncho o cão e não consigo ver nada, exceto com um bom trabalho e uma boa companheira. Sim, não tem jeito. Todo mundo necessita de um bom trabalho e de um grande amor na vida. A gente precisa de quem nos dê tesão e contentamento o tempo todo e precisa também de uma fonte de renda que, mesmo não sendo das maiores, nos proporcione o prazer que não teremos na cama – assim as coisas se completarão. Não tenho nada disso e, ainda por cima, estou virando alcoólatra. Agradeço isso aos meus pais. Eles me ensinaram a ser um perdedor. É incrível como minha mãe minou a minha auto-estima! Acho que ela queria que eu tivesse nascido aleijado – a luta da vida dela toda foi pra tentar me aleijar. Meu pai não está nem nunca esteve aí pra nada. Discordo do Renato Russo (A Legião Urbana não era ruim, mas era “bandinha”): “você diz que seu pais não lhe entendem, mas você não entende seus pais”. Eu entendo, sua bicha! Vá ser complacente na puta que lhe pariu, seu defunto de merda! Quando eu tinha catorze anos eu já entendia, só não conseguia me expressar. Posso até dizer que a merda que sou hoje não é só culpa deles, mas a parcela deles pesa pro caralho! Vou deixar me abater por isso? Não, claro que não. Mas pensei em meus pais quando falei dos meus amigos que se casaram e surgiu algo em minha alma, um questionamento: Vale à pena nascer de uma união assim? Sem tesão, sem amor, sem paz? Um casal frustrado gerará filhos frustrados. Um casal triste gerará filhos tristes. Um casal apático para as coisas do mundo gerará um cadáver. Um pai alcoólatra gerará um filho alcoólatra – isso é cientificamente comprovado (para a minha total e plena desgraça). Bom, vou parar por aqui. Estou começando a engasgar com o meu próprio fel.

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4 Comments

  1. Caju… tá raso, sempre.
    Nossa amizade me permite a deselegância de resumir essas 92 linhas, 1213 palavras e 6713 caracteres da sua postagem numa única, e feita, frase: Qual o sentido da vida? Sua autobiografia é a biografia de todo mundo, mudando uma ou outra personagem, alterando um detalhe aqui ou outro ali no corpo do enredo. Suas indagações são as indagações de todos desde sempre (modificando a complexidade do tema, ou o direcionamento das expectativas), são as mesmas desde sempre.
    As pessoas só se casam porque existem as noites, e dormir no quente é melhor.
    Casamento e sexo não têm qualquer relação de causalidade, casamento e sexo são instituições independentes.
    O grande drama, Caju, é que estamos no meio da caminhada axé da raça humana (no meio da rua e no chão da praça), pulando de pipoca no âmago do processo evolutivo universal: temos uma parte bicho, que não quer nada mais que satisfazer seus três únicos instintos: comer, dormir e gozar; e temos outra parte gente, que é desprovido de instintos e é todo razão. Nossa marcha em direção ao ser humano puramente racional é de destino irremediável, solene e inconteste. Mas nossa irracionalidade sanguínea e quente é pungente e sedutora, é muito mais forte e determina nosso objetivo final. Ainda que tentemos macular o ímpeto, nos cobrindo do véu diáfano e frágil da civilidade, o “bicho” vence o “gente”.
    Se tu descobrir o sentido da vida me avisa, na moral.
    Por enquanto, sugiro sorver violentamente o doce dos prazeres da carne, porque a morte logo pinta por aí. Sugiro não se aporrinhar com as cansativas tentativas de ser gente, porque ninguém é. Sugiro estar sempre acordado, porque a inconsciência é foda. E sugiro escrever sempre aqui, porque eu (e um monte de gente) se amarra nesse seu blog.
    Lembre-se do que disse aquele velho amigo nosso, que num incomum derrapo de sorte descobriu uma sacada que é a melhor e mais confortante das filosofias de vida, capaz de pôr no chinelo todos os livros de Lair Ribeiro e Paulo Coelho. Aquele velho amigo, sem querer, mandou nos dizer a todos que, por mais que a vida pareça um poço profundo, por mais que o frio seja danado, por mais que a madrugada esteja escura, não nos devemos preocupar:
    TÁ RASO.

  2. Cara, este foi seu melhor comentário. Comentário não, “post”. Valeu mesmo, velho. Mais uma vez.

  3. Muito bom cara, muito obm. Nada raso, muito realista e profundo, adorei,

  4. Valeu trovador… O post é mais ou menos antigo, mas tudo continua na mesma… Os mesmos pais, as mesmas paradas… Vamos rezar, né? Só resta isso, mesmo…


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