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Não sou do tipo que morre de amores por histórias de vampiros, mas resolvi escrever uma.

Norman olhou o revolver sobre o criado mudo e sentiu uma onda de arrepio atravessando-lhe as costas. O tiro tinha sido perfeito. Ninguém vira, ninguém ouvira, tinha certeza. O estampido de um trinta e oito não era, decididamente, como um galho se partindo, mas algo lhe protegera naquela missão. Aquilo tinha de ser feito e foi feito. Seu coração parecia estar “mole”, então, após ter batido descompassado e frenético nas últimas horas. Agora, ali sentado à janela, tudo parecia como um sonho, nem bom, nem ruim. Sua avaliação de si mesmo? “Sou um herói”. Há duas semanas encostara o cano daquele mesmo revolver no próprio palato e algo sussurrara em seu ouvido para não puxar o gatilho. Suou frio e tremeu. O cão não estava puxado, para sua sorte, pois lançara a arma longe, e ela tombou, com um baque surdo, perto da parede fronteira. Logo ao lado, na cama, viu a caixa com anti-depressivos. Havia ali ainda quatro comprimidos. Sábado abriria a outra caixa. Todo mês era assim, uma porra de um remédio que levava quinze por cento do salário. Sentia-se viciado. Precisava daquilo se não quisesse se parecer com um verme. Pessoas importantes como o Vampiro o tinham como um verme. Zelda do almoxarifado vinha dormindo com ele, todo mundo sabia. O Vampiro, um capetinha do Inferno, um “diabretezinho menor” bem ordinário, mas que sabia hipnotizar os trouxas, costumeiramente levava os babacas na língua, menos Norman, que conhecia sua condição plenamente – percebera sua cútis branca e seus caninos agudos logo de início, sua aversão a locais abertos de dia. Mas nada se comparava aos seu olhos quase completamente negros. Não era a primeira vez que o Vampiro se deparava com alguém como Norman, mas, tradicionalmente vencia pessoas assim – e seu erro foi acostumar-se a subestimar qualquer um. “Os vermes foram feitos para serem esmagados”, diziam seus olhos quando cruzavam com os dele. Um sorriso sarcástico era como a cereja no topo do monte de creme branco e enjoativo. Norman jamais se pegara tão ameaçado. Foi preciso pensar, pensar muito. A solução veio. Mas não foi fácil, como quase tudo na vida. Estudou os hábitos do Vampiro, a hora e como saía e entrava de casa. Teve que aprender também a manusear a arma. Havia apenas uma bala de prata, pura, encomendada na mão de alguém de confiança. “Atire na testa, bem no meio”, disse o homem. “Aproxime-se o máximo que puder e dispare na testa”. “Balas de prata não são para lobisomens?”, disse Norman em sua ignorância. “Vampiros e lobisomens são os mesmos tipos de filhos da puta”, disse o homem. “Quanto lhe devo pela bala?”. “O único pagamento para um artefato como este, é usá-lo com presteza”. Norman saiu na noite fria, ao encontro do seu destino. Parou atrás de uma árvore a uns cem metros da casa onde seu alvo residia. Ficou ali, imerso na penumbra, desviando das luzes esporádicas dos carros, como um vagabundo qualquer, esperando o diabrete chegar da farra. Finalmente, por volta das três da manhã, a caça chegou. Estava só, ao volante. Norman correu até o carro e bateu no vidro. O Vampiro vacilou por um instante, mas conheceu o “vermezinho” que seria esmagado em breve, e com seu costumeiro sorriso sarcástico desceu o vidro. Ia falar algo, mas a bala de prata irrompeu através do curto cano de ferro indo de encontro à sua pálida testa. A cabeça deu um tranco violento para trás junto com pedaços de ossos, pele, músculos e tufos de fios de cabelo. O tiro não podia ter sido mais preciso e poderoso. Norman correu pela madrugada. Sabia que não houvera testemunhas. Estava certo disso quando entrou no cubículo em que morava, o coração a querer sair-lhe pela boca. Chegou a ficar tonto. Pôs a arma sobre o criado mudo e sentou-se à janela, arfante, esgotado, mas sem o menor vestígio de sono. Seu coração foi amainando aos poucos, mas o sono não chegou nem chegaria. Veria, de sua janela, o dia nascer, e assim haveria de encarar o dia e os repetidos comentários: “Mataram o chefe”.

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