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A Capital é enorme, e enorme é a tristeza de Klein. “Como tudo pode ser tão grande e tão pequeno, ao mesmo tempo?”, pensou, sentado à janela do décimo quinto andar. De seu cubículo, olhava os carros lá embaixo, indo e vindo. Tinha acabado de ler o primeiro livro da famosa trilogia de Tolkien e tinha chorado em diversas passagens… “Não era pra tanto”, pensava, “mas tinha alguma coisa ali”. Há diversos mundos neste nosso mundo, todos feitos pelas mesmas partículas elementares, mas num dia a gente ri, no outro a gente chora… Ele não queria que tudo fosse igual. Mas por que o equilíbrio era algo tão distante, já que, no fundo, no fundo, tudo é feito da mesma merda primordial? Talvez o problema estivesse em se se sentir uma merda… algo que ele conhecia muito bem. No dia anterior, sua namorada, ou melhor, sua ex-namorada dissera: “Cresça!”, e saiu, deixando-o com um meio sorriso, plantado no meio da sala. Klein não teve reação. Ela estava certa. Ele precisava crescer mesmo, mas não queria. Quantas vezes ele ouviu esse “CRESÇA!”, da boca de várias outras garotas? Parecia até piada. Tinha acabado de comprar um vídeo-game de última geração, que Rose odiava. “Não sei como você suporta essa droga”, disse ela, certa feita, enquanto lixava a unha e via TV. “Você está vendo o quê?”, perguntou ele. Ela nada disse, afinal, o programa que Rose assistia era muito pior que os tiros que Klein disferia nas criaturas do planeta X-09K/612 e que acabavam de invadir uma das bases instaladas na nossa lua. Mas ela não suportou muito, não suportou que Klein bebesse, por exemplo… “Pare de beber”, disse ela. “Vou tentar”. “’Tentar’ não, vai parar!” Klein já tinha passado dos trinta, não tinha conseguido nada, só um empreguinho fodido numa loja departamentos. Não tinha mais nem pai, nem mãe. Nada lhe fora deixado quando morreram (seu pai deixou-lhe o gosto pelo álcool). Sua sorte foi ter lido uns dois ou três livros na adolescência. O que também não o salvou da beira do abismo onde se encontrava. “Talvez fosse melhor não pensar”, costumava dizer a si mesmo. Mas ele não parou de beber. E Rose pegou as coisas dela e se foi… Foi-se muito simplesmente. Fato engraçado: a mesma Rose namorara um deputado que todo mundo sabia ser viciado em coca e em espancar mulheres… O deputado que terminou com ela, ELE QUE TERMINOU… Klein sabia disso, um monte de gente sabia, vários amigos deles sabiam. Rose fora sua colega de colégio e eles possuíam amigos em comum. “Ela é interesseira cara”, dissera-lhe um camarada, “não sei como ela está contigo”. “As pessoas mudam…” “Mudam nada, ela vai é te meter o pé na bunda, na primeira oportunidade. Ela tá dando um tempo, recarregando as baterias; quando aparecer outro figurão, Rose some que nem névoa” “Você sempre se achou o dono da razão” “O cuzão a espancava e a entupia de  coca todo dia,  trepava com os viados na frente dela… essa mulher implorou pra ficar quando o sacana não mais a quis… e ele tome-lhe socos e pontapés, jogou-lhe as roupas na calçada e umas notas de cem reais… todo mundo sabe dessa história. VOCÊ sabe! Se liga, meu irmão! A mulher é a maior bandida!” “Vá se foder…” Hoje, Klein lembrava dessa conversa e passava a mão pelo queixo. A barba estava por fazer. “Ela toleraria minhas cervejinhas se eu tivesse uma grana a mais”, pensou, olhando os carros passando na avenida abaixo. “Isso é grave, muito grave” “Quantos metros são quinze andares? Será que dá pra morrer legal, se chegar lá embaixo?” Klein tinha ouvido falar nas clínicas de suicídio, mas tudo parecia ainda lenda urbana… Porém, algo lhe dizia que dentro em breve elas se popularizariam. Que homens de bem poderiam pagar para ter uma morte suave, como os grandes assassinos em série. Klein suspirou de saudade de Rose, da mulher que não valia nada,  – ou muito pouco  – e um pensamento aterrorizante perpassou por sua alma: o que valeria mais, na frágil balança de sua existência? Seu novo vídeo-game, ou Rose? E ele, tristemente, naquele exato momento, percebeu como uma pessoa pode valer menos que um objeto que se pode comprar na loja da esquina… Mas isso é culpa de quem? Provavelmente de Deus, ora bolas… Klein subiu no parapeito da janela e se atirou não pela saudade de uma prostituta (saudade essa que existia, de fato), ou pela vergonha ou pela solidão propriamente dita, ele se jogou porque estava cansado de perguntas sem resposta… só, isso e nada mais.

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