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Mais uma de Steinbeck:

A mãe mergulhou o prato no balde.

-Vamos partir amanhã de madrugada.

O pai rosnou.

-Parece que as coisas tão mudando – disse, sarcástico. – Me lembro do tempo que era o homem que dizia o que se devia fazer. Parece que agora é a mulher que faz isso. Acho que tá bem na hora de eu arrumar um pedaço de pau.

A mãe colocou num caixote o prato de folha, limpo e ainda gotejante de água. Sorriu, debruçada sobre a sua tarefa.

-Vai, vai buscar um pau – disse. – No dia em que a gente tiver um lugar par morar, pode ser que ocê possa usar esse pau sem arriscar a sua pele. Mas agora cê não faz coisa nenhuma, não trabalha e nem mesmo pensa. Quando ocê tiver fazendo isso tudo, muito bem. Aí ocê pode descer pancada e tua mulher vai ficar fungando e andando de gatinhas. Mas agora não. Agora cê encontra a mulher pela frente. Eu também posso arrumar um pedaço de pau pra desancar em você.

O pai sorriu um sorriso contrafeito.

-Acho que não é direito as crianças ouvir ocê falar desse jeito.

-Enche de presunto a barriga das crianças antes de dizer o que é direito pra elas.

O pai ergueu-se, cheio de desgosto, e saiu…

Será que alguém, na face da Terra, é capaz de entender como esse trecho resume um monte de coisa? Só pra ilustrar (de uma forma bem cretina) sintetiza, por exemplo, ajustada e precisamente toda a obra de  Chico Buarque de Hollanda.

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