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Klaus, caminhando por entre as ruínas do antigo Colégio do Sagrado Coração, mantinha os ouvidos atentos. Segurava seu rifle com os dedos duros, travados. Apoiava o polegar por cima do protetor do gatilho. Olhava para os lados, para baixo, para cima… Atravessou o que restou do colégio e saiu na rua logo atrás. Lembrou da casa onde Marina morava. Eles foram colegas de sala no Colégio do Sagrado Coração. A casa de Marina era uma amontoado de pedras e pó, agora. “Ela era branca, tinha cabelos pretos, lábios grandes e finos, pernas grossas. Gostava de usar calças apertadas… Deve ter dado muito, naquela época.” Klaus desviou para esquerda, seguindo ao comprido da rua, indo na direção de um armazém, também em ruínas. Tentou parar de pensar em Marina. Possivelmente estaria apodrecendo sobre o que restou da casa, junto com a família, assim como talvez noventa por cento da população do planeta. Vez ou outra, ouvia-se um estrondo e uma nuvem negra podia ser vista ao longe. “O que é isso?” Klaus quase tinha vontade de que uma dessas explosões acontecessem perto dele, para matá-lo logo de uma vez… As lembranças da noite passada ainda estavam em sua mente, muito, mas muito vivas… “Seu Hilton, nossa, seu Hilton…” O homem, de quarenta e três anos, funcionário público, conhecido da família, gemia sob um pedaço de marquise. Klaus se aproximou. Até então, caminhando pela Cidade por dois dias, fora a única pessoa viva que encontrara, e seu estado era lamentável. O pedaço de lage caíra de ponta sobre sua bacia. Por pouco seu tórax não fora seccionado dos membros inferiores. Estava naquela situação há várias horas, não sabia dizer ao certo. Delirava, mas reconheceu Klaus, ainda que a uma distância relativamente grande, para alguém em suas condições. Estendeu um braço, que deixou quedar no mesmo instante. Klaus notou, a cerca de vinte ou trinta metros da cena, e foi correndo até ele, segurando seu rifle, ou melhor, o rifle do seu pai morto.

-Seu Hilton?

A voz do homem saía arrastada, cadavérica. Ele viu o rifle na mão de Klaus e disse:

-Mate-me garoto, por favor… Os sonhos… A dor… Eu vi as luzes… Eu preciso morrer, não agüento mais… Encontre Sandra, fale com ela – nesse instante lágrimas caíram-lhe pelos olhos – diga que a amo.

-Mas…

-Oh, droga! – gritou Hilton. Foi um grito longo, profundo, carregado de dor e angústia. -As coisas que fiz… meu corpo, minhas pernas… – naquele momento, o homem chorava como uma criança. -Cadê Deus?! Deus, me ajude, seu filho da puta! Por favor, por favor, eu não quero morrer… Sandra!! Sandrinha!! Não, não, não… Filho! – disse segurando o braço de Klaus com o resto de força que tinha – filho! Atire em minha cabeça, por favor…

-Mas seu Hilton…

-Eu já estou partido em dois, seu merda… O diabo me manteve vivo não sei pra que porra! Me partiram em dois. Minhas pernas estão separadas do meu corpo. Meu cu está separado do meu corpo. Como eu vou viver sem cu, seu porra? Hem? Você viveria sem cu? E minha rola? Meus colhões já eram! Não tenho mais colhões, nem cu, nem pernas… me mate logo, vá.

Seu Hilton, chorando, gemendo, tremendo, pegou o cano do rifle e encostou no ouvido esquerdo.

-Puxe o gatilho!

Klaus suspirou profundamente. Nunca tinha matado um rato. Olhou para os lados. Viu o que vinha vendo há três dias: ruínas, destruição, silêncio, medo, horror, tristeza, desolação. Avaliou mais um pouco a situação do seu conhecido. A quina da marquise imprensava-lhe o quadril contra o chão e tal configuração do corpo do coitado era estranhíssima, bizarra. Sua cintura se achatara e tinha menos que cinco centímetros de largura. Seus olhos esbugalharam-se um pouco e seu rosto inchara e arroxeara muito. Uma forte onda de melancolia percorreu o corpo do Klaus. Soluçou. Teria que matar um homem. Não queria, mas teria de fazer o serviço. Há quantas horas andava sem ver uma só pessoa? Quanto tempo levaria para reencontrar alguém, depois do que aconteceu? Mas puxou o gatilho e a cabeça de Hilton deixou de existir, assim como sua dor e seus lamentos, possivelmente. Pedaços de ossos e carne fincaram-se na parede da loja de onde despencou a marquise. Klaus quase vomitou ao ver um grande pedaço de cérebro a uns dois metros. A mão de Hilton largou a boca da arma e o jovem saiu, sem rumo…

“Teria sido pior se tivesse que fazer isso com Marina”. O armazém estava logo à sua frente, ou melhor, o que restou dele. Um forte estrondo fez-se ouvir ao norte. Possivelmente a quarenta, cinqüenta quilômetros… Não tardou, uma coluna negra foi subindo no horizonte daquele lado. Klaus tinha invadido uma loja de armamentos e pegara para si mais de trezentos cartuchos. Levava-os numa mochila à parte. Tinha outra cheia de comida, que pegara num supermercado em ruínas. Entrou no perímetro do armazém e recostou-se à uma parede. Sua mente viajou por alguns instantes e não tardou pegar no sono, para nunca mais acordar.

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2 Comments

  1. Como não tem nenhum comentário srsrsr estou me ousando a começar dizendo que ainda estou lendo. Estou com algumas dúvidas sobre o que comentar.
    bj:)

  2. Bi? Bom, não é o Bi que estou pensando, pois ele não mandaria “bj”… Não vou citar nomens, certo? Aqui no Armazém todo mundo tem o privilégio do anonimato… Mas vou supor que seja mulher, ok? kkkkkkkkkkkk… Valeu pelo post, e relaxe, sinta-se à vontade no Armazém… Escreva quando, onde e na ordem que quiser… Aqui tudo é free!!! Beijocas!!!!


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