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Um dia desses, deitado na cama, numa quarta-feira, por volta das seis da manhã, tive um daqueles momentos chatos. Sem sono, agoniado, cansado de existir (mesmo!), sabe? Pois bem, pensei num cara. Um sujeito qualquer, sem muita expressão e tal, um cara normal, sentado à beira de um riacho… no coração da floresta amazônica. Pense bem, NO CORAÇÃO DA FLORESTA AMAZÔNICA! Ele não tem nada, exceto suas roupas. Não tem cigarro, fósforo, celular, caneta, NADA! Como caiu nessa situação? Só Jesus, pra dizer. Eu não sei, mas vi o sujeito ali, parado à beira de um riacho, e ao seu redor uma massa verde, úmida, quente, mosquitos imensos a chupar-lhe o sangue e infligindo-lhe doenças inimagináveis… Ir para onde? Ele pensa. Na verdade, o cara, que podemos chamar de Noel (poderia ser qualquer outro nome) já andou bastante, tá cansado pro caralho e só parou ali porque tinha água corrente. Encheu a barriga de água e amuou ao tronco de uma árvore imensa. Noel suspira e deixa que as lágrimas caiam. “Morrerei aqui”, pensa ele. No auge de sua agonia, olha para o lado. A poucos metros, vê algo brilhante. Fica durante algum tempo admirando aquele brilho emergindo através das folhas secas à beira da água. Noel, casado, pai de dois filhos (“onde estarão eles agora?”), por alguns instantes, tem a impressão de estar sonhando. Na verdade, queria muito isso. Mas um inseto enorme, dotado de uma gigantesca bomba de sucção, quase destruiu-lhe a jugular – isso o obrigou a voltar à sua dura realidade, mais rápido do que queria. Apesar disso, o brilho continuou lá… Aqui cabe um parêntese: não se esqueça que isso tudo foi pensado na cama, às seis, numa quarta e tal… Bom, voltando… Noel resolveu então ir até o brilho, que insistia tanto em brilhar. Não era miragem. Se arrastou, com o pouco de força que possuía e limpou as folhas que cobriam parcialmente a fonte do brilho. Seu combalido coração, já massacrado pelo terror da morte iminente (mas lenta), deu outro revertério quando seus olhos pousaram sobre uma enorme pedra de diamante. Por coincidência, e bota coincidência nisso, nosso “perdido” é especialista em pedras preciosas e reconhece de imediato o valor daquele “achado”… (peço desculpas pelo trocadilho cretino, mas foi inevitável). Ele pega a pedra, de quase meio quilo, lindamente lapidada, e a limpa na água do riacho. Em seguida, volta para se recostar na árvore imensa, com a pedra no colo. Noel olhou-a até morrer. Eu vi isso, vi um homem, perdido no meio do nada, olhando para uma pedra espetacular e morrendo com ela nas mãos. Ali, na situação em que se encontrava, aquele diamante valia menos que um aparelho GPS, por exemplo. Ou melhor ainda, um daqueles celulares de longo alcance – com a bateria carregada, é claro. Sei que é absurdo pensar nisso, mas não é menos absurdo que o que aconteceu. Mas vejam, o lance todo é a utilidade. A gente pode até se perguntar: o que é a beleza?, tomando como ponto de partida a situação toda. Sim, pois a beleza do diamante não ajudou Noel a reencontrar sua esposa e seus filhos. Mas um GPS horroroso, cheio de botões e luzinhas piscando, poderia. O que é a beleza do diamante? Pra que serve a beleza do diamante? De que adianta a beleza do diamante? Ele é raro, só tem ele, mas e daí? Nem comê-lo Noel podia, ora bolas! Muita coisa passou pela cabeça no nosso amigo, antes de morrer, imagino… Entretanto, remoendo esse pensamento, e isso já tinha o quê?, passado uma boa meia hora… então, remoendo isso tudo, me veio algo bem triste, sim, triste: esse diamante pode representar a vida, essa existência nossa. Cada ser é único, portanto raro. Nem todos são belos, mas seu caráter único compensa isso… contudo, para que serve esse troço todo? Digo, esse existir? Esse viver? O cadáver de Noel está ainda hoje lá, encostado ao tronco da enorme árvore, e o diamante também está lá, com ele… Onde estará o espírito de Noel? Se existe espírito, pra que serve? Diante disso, lembrei da imagem de uma linda nuvem de poeira cósmica e também me perguntei pra que diabo serve isso. Por que a Natureza precisa do meu sofrimento tanto quanto da nuvem de poeira cósmica? Toda essa estética, toda essa beleza, toda esse busca desenfreada por prazeres e gozos materiais nos levará pra onde? Se tudo der certo (ou errado) seremos velhos lembrando das melhores transas, das melhores viagens, dos melhores dias vividos… mas, e daí? Você está entrevado, duro, não consegue mais andar, sua memória está uma droga, você baba, se caga… de repente descobre um tumor e é só questão de tempo… e isso tudo, toda essa baba, esse cocô, essa memória serviu pra quê? A gente olha pra dentro da gente, como Noel olhou pra aquele diamante até morrer. A gente busca uma beleza que existe, mas não serve pra nada. É só isso… Depois desse pensar desalmado, me levantei, tomei banho, café, escovei os dentes, me arrumei e fui pro trabalho… É só isso, e nada mais… à noite, quando cheguei, enquanto tirava os sapatos, olhei para o relógio e pensei em como estava ficando velho e que talvez a única coisa que exista de fato, dentro e fora de nós mesmos, seja o tempo. O tempo não é uma mera criação do homem, não pode ser. O homem pode até ter criado Deus, mas não criou o tempo. O homem deu uma “cara” ao tempo, aprisionou frações dele em relógios. Não tem jeito, a única coisa que existe é o tempo e as coisas que estão dentro dele são como o diamante de Noel. O tempo vai distorcer, amassar, amadurecer, vencer, corroer, mutilar, estuprar, envelhecer, mas no final, bem lá no final, tudo será uma coisa só, e que não servirá pra absolutamente nada.

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