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Procuro sempre manter minha TV desligada, como sempre fiz, faço e continuarei a fazer caso minhas faculdades mentais permaneçam como estão (nem muito boas, nem muito ruins). Mas vez ou outra, você se pega numa situação onde ela, a TV, lhe acua. O troço fica ligado na sua frente e acabou, algo lhe puxa e sua cabeça fica ali, parada, diante da tela. Nessa sexta tive o imenso desprazer de assistir a um lixo que se chama Ó Paí Ó. Sou baiano, e aquilo não é a Bahia. Sempre que as TV’s do sul invocam conosco é tratando mal, é desfazendo, é caricaturando. Isso sempre aconteceu. As mulheres são todas putas e/ou beatas dementes, os homens são todos imbecis e cornos, todo mundo fala arrastado e aos berros, a história supõe um humor que não existe, sem falar da preguiça crônica que nos aflige, desde a época de Cabral. Mas Ó Paí Ó bateu todos os recordes de sacanagem televisiva que um povo pode fazer contra ele mesmo, certamente. Enquanto via aquele monte de barbaridades, tolices, sandices, trejeitos e gritos sem sentido, foi como se alguém, com o dedo em riste, apontasse pra minha cara e dissesse: “antes isso que nada, seu baiano de merda! ‘Fale mal, mas fale de mim!’”. Aquela é uma realidade local, de um local de Salvador, mais precisamente do Pelourinho. Respeito o pessoal do Pelourinho e sei que há dificuldades enormes por lá. Tenho certeza que as coisas são mais sérias do que parecem, que há muita prostituição, analfabetismo, doença e tristeza. Há tempos que os baianos conscientes sabem que essa alegria toda, na verdade, é uma forma de disfarçar a profunda melancolia que abate nossas vidas sem rumo. Toda essa sexualidade, toda essa explosão, toda essa movimentação, é mais como a atitude de alguém que sabe que o mundo vai acabar amanhã e quer botar pra quebrar hoje e agora. Não consigo enxergar a vida do povo do Pelourinho como algo a ser admirado. Posso admirar sim sua capacidade de sobreviver e querer continuar a viver apesar de tudo, mas fazer um suposto humor em cima de situações como a da grávida que pena por vários hospitais pra da à luz é uma puta de uma sacanagem – o problema tem que ser mostrado, mas não como algo natural, quase cômico (que na verdade é – o que não é novidade, aqui pra nós), e sim como um escândalo (que deveria ser). Nos acostumamos a sofrer humilhações e Ó Paí Ó é uma prova disso. Perdemos o direito a auto-estima, como se auto-estima fosse orgulho. A Bahia não é o melhor lugar do mundo, mas é onde eu vivo e me senti desrespeitado com essa porra dessa série, que espero que acabe logo.

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