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Vez ou outra me pego a interrogar-me sobre o que sei a respeito das coisas. Vejo que não sei nada profundamente. Sinto alívio por um lado e um pouquinho de angústia por outro. Alívio por não ser um especialista, e angústia pelo fato de que o mundo de hoje exige especialistas. Ser um expert tem lá o seu preço e não sei se seria mais ou menos angustiado do que sou, não sendo atormentado por montes de coisa ao mesmo tempo. No final das contas percebo que sou o que sou e ponto final. A gente vive como pode, fazendo o que pode e buscando o que o braço alcança. Conheço gente que já foi pros EUA e adorou. Gente que sabe falar inglês, é claro. O pessoal passou certo tempo lá, ganhou dinheiro e voltou. Essa galera é cheia de lembranças boas. Não sei falar inglês, nem sei nada sobre os EUA, mas conheço, logicamente, algo da cultura de lá. Arrisco até dizer que possivelmente sei até mais sobre lá do que sobre o Brasil. Isso é um disparate, mas já não sei mais também o que é disparate e o que não é. Saber sobre  nossa cultura vai me ajudar em quê, levando-se em conta que somos pobres também nisso? O Brasil é fenomênico, em diversos aspectos. É um país rico em desgraças, mas incapaz de produzir, hoje em dia, bons escritores. A crise literária é mundial. Mas aqui a coisa ganha dimensões dantescas. É claro que há pessoas escrevendo, muitas, mas cadê esse povo? Foi o que Norman Mailer disse (é o velhinho na foto): “a democracia depende da beleza da linguagem”. Concordo com este grande escritor contemporâneo, um dos últimos, que morreu no ano passado aos oitenta e quatro anos. A cada dia que passa, nosso país se torna menos democrático e mais burro e a tendencia é piorar. Quem é que pode viver de arte, hoje? Quem é que pode sonhar em escrever? Quem é que pode sonhar em esculpir, pintar, cantar? A televisão escolhe quem ela quer, e ao resto sobra apenas a opção de ralar o bucho. Isso é democracia? Você pode escolher seus caminhos, mas quase todos levam ao mesmo lugar: fome, pobreza, marginalização, solidão, angústia, etc. Mailer era uma voz extremamente ativa na cultura americana, era alguém que dizia sem o menor pudor, dentre inúmeras outras coisas, que George W. Bush era pior que um jumento. Eu nunca vi um artista brasileiro sequer chingar nenhum dos nossos grandes filhos da puta, exceto por certas metáforas aplicadas no período militar. Aqui existe a cultura do rabo preso, da bajulação, do favorecimento… Só uma única vez, pra não ser injusto, presenciei Paulo Autran, no Sem Censura, da TVE, meter seca em Edir Macedo. Mas antes de Paulo Autran falar, a apresentadora tinha comentado, com outro convidado do programa, algo sobre esse nosso grande bandido e ela foi obrigada, após o intervalo, a se retratar diante das câmeras. Paulo se revoltou com a atitude da TVE e soltou os bichos… Mas isso é uma agulha no palheiro. Nunca mais vi nada assim, e isso tem cerca de dez anos. Tem uma entrevista com Norman Mailer, e gostaria muito que você, caro leitor do Armazém, lesse. Ela está no seguinte link: http://www.geneton.com.br/archives/000174.html. Pensei em reproduzir algumas coisas aqui, mas o texto ficaria enorme e tenho estado sem muito tempo. Quando li essa entrevista, novamente me peguei vitimado por dois sentimentos díspares (tem um nome pra isso, mas esqueci). Fiquei alegre por saber que tem gente que pensa como ele (faz de conta que o cara ainda tá vivo) e triste por saber que no Brasil, gente como ele, morreria pobre, fodido. Não há espaço pra pessoas como Mailer se desenvolverem aqui. Ele que já estava sufocado lá na “grande águia”, aqui  sequer se desenvolveria. É só pensar que o cara era jornalista. Ora, a revista VEJA, que já prestou, abriu a boca em uma de suas edições (foi desse ano, mas esqueci o número), e chamou Karl Marx de “velho barbudo acometido de furúnculos que engravidou a empregada”. Coitado de Mailer, se vivesse em solo tupiniquim. Falar de quem já morreu é fácil, ainda mais de gente como Marx, que deu a cara pra bater. O cara escreveu massarocas e massarocas de teorias respeitadas em tudo quanto é buraco e duas repórteres da VEJA o esculacham, como se aqui não houvesse montes de sacanas pra serem esculachados. Que culpa Marx tem se a humanidade não presta? Ele lançou as idéias, a maioria utópicas, e se a coisa não deu certo, não precisa também chinga-lo. Afinal, o capitalismo, o sistema vigente, tornou o mundo melhor em quê? Quando você vende sua força de trabalho, você também se vende. Mas vá lá… Tudo bem que eu venda minha força de trabalho, mas por que tenho que ficar oito, dez, doze horas por dia fazendo isso e ganhando uma porcaria? Com os avanços tecnológicos poderíamos educar melhor as pessoas, fazê-las trabalhar menos e ganhar mais, e dessa forma propiciar o tempo livre para a cultura, o lazer, o estudo… Mas é isso que acontece? Talvez a Suíça seja assim, não sei… Como disse, sou meio ignorante. Mas devem existir bons lugares no mundo. Deve existir gente que trabalha decentemente, sem ser explorado até a exaustão por bandos de corruptos… Bom, chega. É um domingo de tarde. Vou me entregar a alguma atividade lúdica. Chega de falar dessas coisas.

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2 Comments

  1. Bem que você poderia colocar: “Literatura e algumas outras impressões desimportantes”

  2. É verdade.


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