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Monthly Archives: julho 2010

Um pai deve saber certas coisas, coisas importantes para a educação de um filho. São poucas, mas fundamentais. Uma delas, é o valor do sacrifício. Ou melhor, do auto sacrifício. O egoísmo paterno pode ser uma das razões da estagnação de nosso mundo. Outro câncer é a indiferença. Há uma história oriental que fala de um sujeito que tinha dois filhos. O primeiro, o mais velho, gostava de ler, ler qualquer coisa que considerasse boa, e apreciava também observar e discutir as coisas do mundo. O segundo, o mais novo, gostava de trabalhos manuais. Ambos eram pessoas de bem. Um dia houve uma discussão e Segundo disse ao pai: “se não fosse por mim, você não se sentava numa cadeira, nem se deitava numa cama, tampouco comia num prato, pois fui eu, com minhas mãos que os fiz. E Segundo? Segundo fez o quê? Você encherá, Pai, sua barriga com letras e filosofia? Ele, por acaso, planta alguma coisa? No frio, o senhor se enrola nos devaneios dele, por acaso?” O Pai, nada disse. Deixou que alguns dias se passassem, e as feridas fechassem. Então, chamou os dois filhos para uma pescaria. Na volta, Segundo precisou ser amparado para não cair de terror, ao ver a casa, com tudo que dentro possuía, reduzida a um monte de cinzas. “Pai”, disse ele em prantos, “nossa casa, ela está destruída… o que faremos agora?” “A reconstruiremos”, disse o Pai. “Assim? Só isso? O senhor não está triste?” “Não, meu filho, estou muito alegre” “Por quê?” “Por que, desta vez, você pensará nas coisas que constrói, não as fará com sórdidas intenções”. No processo de reconstrução, então, Segundo percebeu algo: Primeiro o ajudava a reconstruir a casa, e, à noite, ao redor da fogueira em frente à barraca, também era Primeiro quem falava coisas boas e os fazia rir. Segundo notou que, ao contrário do seu irmão, ele não podia tomar parte naquele momento, pois era vazio e não sabia falar tão bem. E, diversamente do que dissera certo dia ao Pai, mesmo numa barraca podia-se viver. Assim, Segundo tentou se aproximar de Primeiro, embora jamais tivesse conseguido se lhe igualar em sabedoria. Um dia, no futuro, quando Pai já estava bem velho, em seu leito de morte, e seu dois filhos eram homens feitos, pais de família e com boa vida, Segundo disse: “Pai, gostaria de pedir-lhe desculpas por ter um dia jogado em sua cara que eu lhe fazia coisas. Aprendi muito na reconstrução de nossa casa. Descobri que um homem não se faz apenas de trabalhos, mas, principalmente, de pensamento. Afinal, até para que executemos alguma tarefa, temos de pensar, primeiro. Antes de tudo, há o pensamento”. “Por isso, meu filho”, disse o Pai, “pedi a um vizinho para pôr fogo na casa, enquanto pescávamos”.

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