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Category Archives: Entrevista

Antes de mais nada, gostaria de pedir desculpas aos amigos frequentadores do Armazém, pelo longo hiato. Ultimamente, tem sido difícil ser um ser humano contente, como o restante da população que se propõe a pensar, o que é, certamente, o caso dos leitores do Armazém. Atividades lúdicas, como elaborar posts para blogs… nossa mãe… parece um luxo enorme, e, na verdade, não é. Deveria ser simples e tranquilo, como a existência… mas, muitas coisas são o que, de modo algum, deveriam ser… A verdade é que sou um escravo moderno, como os demais que não representam o topo da pirâmide. Entretanto, cá estou. Não muito firme, nem muito forte quanto gostaria, mas estou. Mas venho não por mim, necessariamente, e sim pelo meu grande amigo, o escritor Fabiano Blumetti. Ele acabou de lançar o excelente romance INVERNO, pela Biblioteca 24×7 e imaginei que poderia ser bacana ele me conceder uma entrevista. Bom para ele e para o Armazém, que inaugura uma nova categoria e bota coisa nova na área. Essa entrevista foi por telefone. Eu estava em Amsterdã, a trabalho, e Fabiano, em sua casa, na Bahia, de férias. Segue a transcrição do que se falou:

Armazém: Fabiano, li seu romance ontem, não consegui parar… é fenomenal…

Fabiano: Muito obrigado.

Armazém: Fale sobre o livro.

Fabiano: Bom… é um livro curto, com aproximadamente 190 páginas… mas é repleto de acontecimentos… fica até difícil resumir. É em forma de novela e tem um monte de personagens cujas vidas se cruzam num certo intervalo de espaço/tempo. Pela trama se passar num período hibernal, daí o nome Inverno. Trata-se de coisas bem atuais, problemas corriqueiros e outros nem tanto, desse nosso “Covarde Mundo Novo”.

Armazém: Como você falou, Inverno tem relativamente poucas páginas, mas, parece ser um livro grande. Como você conseguiu isso?

Fabiano: Se entendi sua pergunta, acho que essa impressão se deve à intensidade com que construí, principalmente, os personagens. Não falo nem com relação à trama, pois é algo lógico que seja rica. Mas, em relação aos personagens, espremi bem a cachola pra dar-lhes a vida necessária à verossimilhança.

Armazém: Há um transexual, na história… alguém que você conheça? (risos).

Fabiano: (risos) Não pessoalmente. Mas é um transexual verossímil, ou não?

Armazém: Bastante verossímil, por isso a pergunta.

Fabiano: Ser escritor é ter uma porra de uma antena. A gente tem que enxergar onde o olho não vai. Isso é uma das coisas mínimas do ofício. No final das contas, tudo é o que a imaginação projeta para a realidade, até mesmo na vida.

Armazém: A gente já conversou sobre isso, certa feita, mas diga pro pessoal do Armazém quando você pôs na cabeça que queria escrever?

Fabiano: Muita gente acha que você tá tirando onda, ou é maluco, quando diz que escreveu uma merda de um livro, embora várias pessoas escrevam. O que não rola mesmo, é ganhar grana. Porém, a vontade sempre existiu, desde bem pequeno. No início, o prazer era ler num canto sossegado, viajar numa boa história. Daí, com o tempo, surgiu a necessidade de fazer minhas próprias coisas. Primitivamente, produzi peças curtas e repletas de erros de ortografia e tal, grandes merdas… Mas, só pouco depois dos vinte que comecei a levar a coisa mais a sério. Agora, aos trinta e três, finalmente pude publicar um livro, o melhor que já fiz. Acho que ninguém se arrependerá de ler.

Armazém: Você tem outro livro, não tem? O Farol. Já tentou ver se dá pra publicar?

Fabiano: No futuro, quem sabe… quando a humanidade estiver mais bem preparada… (risos) Mas, O Farol, não é melhor que Inverno. Há uma diferença de quatro anos entre eles, e Inverno é bem mais consistente. A vida é assim, não é? Se o tempo serve pra alguma coisa, é pra nos ensinar.

Armazém: Em quanto tempo você escreveu Inverno?

Fabiano: Exatamente, seis meses.

Armazém: Levando-se em conta que você se tornou pai recentemente, sua mulher trabalha fora e você também, como encontrou tempo para fazer essa bela obra?

Fabiano: Houve momentos de muita aflição, foi bem difícil. Gabriel García Márquez disse que o cara é escritor (amador ou profissional) como alguém é negro ou judeu… concordo. Não acordei um belo dia e disse: Oba! Vou ser escritor! É uma parada interna e que consome a gente. Não dá pra fugir, é como coçar. Tem que se fazer… Daí, quando vi que tinha a história de Inverno na mão, eu só podia fazer uma coisa: sentar numa cadeira e descer o cacete. Mas, como você disse, meu filho está pequeno e meu trabalho… Olha, a humanidade tá ferrada(risos). Caras como nós, que gostam de produção cultural, têm que sair oito da manhã todos os dias, sem saber a hora de voltar… Isso é aterrorizante. Geralmente volto tarde, depois das sete, morto de cansaço, a cabeça pesada, e minha esposa também… daí, tenho que dar carinho ao pequeno, ter tempo para escrever, ler alguma coisa e ainda ficar mais a mulher… tudo isso num intervalo de três, quatro horas, no máximo. É claro que há o banho e o jantar… Assim, se eu dormir antes da meia-noite, é como se minha vida não existisse… Você nem curte sua casa, suas coisas, sua família… O cara tem que levar trinta e cinco anos nessa porra… quando tiver morrendo, diz: “agora sim, vou viver”. Viver o quê?! O pau do cara nem sobe mais (risos). O sujeito tá velho, sem pique… o melhor pedaço de nossas existências, nosso vigor, nosso viço, é entregue de bandeja… O ser humano nasceu para ser criativo, fazer arte, curtir a natureza, ser feliz… e isso, a cada dia, tem sido muito mais que uma simples ideia utópica. É triste pro caralho.

Armazém: Muita gente deve te achar preguiçoso, ou que reclama de barriga cheia.

Fabiano: Com certeza! É o que mais rola… mas, vou te dizer: isso, em grande parte, é culpa da mídia. Eu mesmo era assim, há um tempo atrás. Mesmo já lendo e escrevendo, eu imaginava que o trabalho era algo natural, e que por ser natural, ninguém deveria reclamar. Tipo: como vou ficar puto por ter que cagar e mijar todo dia? O sistema monetário nos impinge o conceito de que só o “trabalho convencional” integra e constrói… Isso é mentira. É importante que sua atenção seja desviada da arte e da filosofia, isso gera pessoas burras, incapazes de pensar, e, logo, de questionar, o que mantém o status quo. O trabalho, esse trabalho escravizante, onde nossa vida nos é sugada diariamente, ele não é natural, foi inventado… tem um site, http://www.movimentozeitgeist.com.br, onde tudo isso é dissecado muito bem. Lá, eles dizem quais as alternativas – já que muita gente pergunta: se o povo não trabalha, como é que o mundo gira? Como introdução, sugiro a seção de vídeos… Não é religião, não é sectarismo, não é fanatismo… é análise, é razão, é ideia. Acredito que não há muita preguiça no mundo, não… Só há preguiça de querer mudar o modelo vigente. No livro, em Inverno, coloco um pouco dessas coisas.

Armazém: Aí é que entra a Internet…

Fabiano: Se há democracia no mundo, é na Internet. E, se houver alguma salvação, ela virá da Internet. Mudei muitos conceitos meus, a maioria, na verdade, através da Internet. O próprio Movimento Zeitgeist, por exemplo, é puramente “internético”. Jamais isso vai parar na TV, nem paga, nem aberta. Minha editora, por exemplo, é toda baseada na rede.

Armazém: Fale um pouco sobre ela, sua editora.

Fabiano: A Biblioteca 24×7 (http://www.biblioteca24x7.com.br) disponibiliza seu material num site, para leitura on-line ou, se a pessoa preferir, pode adquirir o livro físico. O próprio nome, 24×7, significa 24 horas por dia, 7 dias por semana. É claro que o conteúdo é criptografado, e não há risco de ser copiado e colado, por exemplo… É uma editora pequena, mas todo oásis é assim, não é? Estou bastante feliz em colocar o trabalho na rua, em dar a cara pra bater. Mas, com os pés no chão, é claro. É preciso ser humilde, sempre.

Armazém: Qual o preço do livro?

Fabiano: A edição para leitura on-line sai por R$ 12,50 e a versão impressa R$ 41,84.

Armazém: Você não acha que o preço da edição impressa é cara, e que o público ainda tem reservas com relação ao formato digital?

Fabiano: A versão impressa é um pouco cara, mas é por conta do modo como a Biblioteca 24×7 trabalha a questão da tiragem, que, na verdade, não existe. Quando alguém compra um livro físico, eles produzem esse único exemplar, que é numerado. Assim, de certa forma, é um livro exclusivo e, portanto, o preço dele jamais será compatível ao preço de um livro com milhares de exemplares produzidos de uma só vez. Em economia vemos isso. Quanto ao formato digital, acredito que ainda será bem procurado, mais lá para frente. Vários e-readers estão surgindo, a Positivo até lançou um agora… Porém, acredito que nada superará o velho e bom livro de papel.

Armazém: Você sabe, nós já conversamos sobre isso, meu sonho, e acredito que o de muitas pessoas no mundo todo, é viver de escrita. Que mensagem você dá pra quem está começando.

Fabiano: Bom, eu estou começando (risos)… Mas, sei lá… acho que é muito importante pôr os dois pés no chão e não prostituir sua arte. Antes de mais nada, a arte deve ser uma forma de meditação, uma forma de se entrar em contato com realidades mais sofisticadas e belas. Ganhar dinheiro nesse campo só é bom quando a coisa é natural. Não deixe de fazer outras coisas, para viver. Infelizmente, é assim. Eu critico o mercado de trabalho, mas sou consciente. Mas também não permita que nada atrapalhe sua arte. Há uma palavra mágica: persistência. Todos aqueles que foram algo, que conseguiram algo, seja na arte, na ciência, na política, todos têm uma coisa em comum: a persistência. Ganhar dinheiro é assessório, e jamais deve ser um motivo.

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