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Category Archives: Livros

-A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus: não se lhe podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida; e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens.

O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha – Miguel de Cervantes Saavedra

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Klaus, caminhando por entre as ruínas do antigo Colégio do Sagrado Coração, mantinha os ouvidos atentos. Segurava seu rifle com os dedos duros, travados. Apoiava o polegar por cima do protetor do gatilho. Olhava para os lados, para baixo, para cima… Atravessou o que restou do colégio e saiu na rua logo atrás. Lembrou da casa onde Marina morava. Eles foram colegas de sala no Colégio do Sagrado Coração. A casa de Marina era uma amontoado de pedras e pó, agora. “Ela era branca, tinha cabelos pretos, lábios grandes e finos, pernas grossas. Gostava de usar calças apertadas… Deve ter dado muito, naquela época.” Klaus desviou para esquerda, seguindo ao comprido da rua, indo na direção de um armazém, também em ruínas. Tentou parar de pensar em Marina. Possivelmente estaria apodrecendo sobre o que restou da casa, junto com a família, assim como talvez noventa por cento da população do planeta. Vez ou outra, ouvia-se um estrondo e uma nuvem negra podia ser vista ao longe. “O que é isso?” Klaus quase tinha vontade de que uma dessas explosões acontecessem perto dele, para matá-lo logo de uma vez… As lembranças da noite passada ainda estavam em sua mente, muito, mas muito vivas… “Seu Hilton, nossa, seu Hilton…” O homem, de quarenta e três anos, funcionário público, conhecido da família, gemia sob um pedaço de marquise. Klaus se aproximou. Até então, caminhando pela Cidade por dois dias, fora a única pessoa viva que encontrara, e seu estado era lamentável. O pedaço de lage caíra de ponta sobre sua bacia. Por pouco seu tórax não fora seccionado dos membros inferiores. Estava naquela situação há várias horas, não sabia dizer ao certo. Delirava, mas reconheceu Klaus, ainda que a uma distância relativamente grande, para alguém em suas condições. Estendeu um braço, que deixou quedar no mesmo instante. Klaus notou, a cerca de vinte ou trinta metros da cena, e foi correndo até ele, segurando seu rifle, ou melhor, o rifle do seu pai morto.

-Seu Hilton?

A voz do homem saía arrastada, cadavérica. Ele viu o rifle na mão de Klaus e disse:

-Mate-me garoto, por favor… Os sonhos… A dor… Eu vi as luzes… Eu preciso morrer, não agüento mais… Encontre Sandra, fale com ela – nesse instante lágrimas caíram-lhe pelos olhos – diga que a amo.

-Mas…

-Oh, droga! – gritou Hilton. Foi um grito longo, profundo, carregado de dor e angústia. -As coisas que fiz… meu corpo, minhas pernas… – naquele momento, o homem chorava como uma criança. -Cadê Deus?! Deus, me ajude, seu filho da puta! Por favor, por favor, eu não quero morrer… Sandra!! Sandrinha!! Não, não, não… Filho! – disse segurando o braço de Klaus com o resto de força que tinha – filho! Atire em minha cabeça, por favor…

-Mas seu Hilton…

-Eu já estou partido em dois, seu merda… O diabo me manteve vivo não sei pra que porra! Me partiram em dois. Minhas pernas estão separadas do meu corpo. Meu cu está separado do meu corpo. Como eu vou viver sem cu, seu porra? Hem? Você viveria sem cu? E minha rola? Meus colhões já eram! Não tenho mais colhões, nem cu, nem pernas… me mate logo, vá.

Seu Hilton, chorando, gemendo, tremendo, pegou o cano do rifle e encostou no ouvido esquerdo.

-Puxe o gatilho!

Klaus suspirou profundamente. Nunca tinha matado um rato. Olhou para os lados. Viu o que vinha vendo há três dias: ruínas, destruição, silêncio, medo, horror, tristeza, desolação. Avaliou mais um pouco a situação do seu conhecido. A quina da marquise imprensava-lhe o quadril contra o chão e tal configuração do corpo do coitado era estranhíssima, bizarra. Sua cintura se achatara e tinha menos que cinco centímetros de largura. Seus olhos esbugalharam-se um pouco e seu rosto inchara e arroxeara muito. Uma forte onda de melancolia percorreu o corpo do Klaus. Soluçou. Teria que matar um homem. Não queria, mas teria de fazer o serviço. Há quantas horas andava sem ver uma só pessoa? Quanto tempo levaria para reencontrar alguém, depois do que aconteceu? Mas puxou o gatilho e a cabeça de Hilton deixou de existir, assim como sua dor e seus lamentos, possivelmente. Pedaços de ossos e carne fincaram-se na parede da loja de onde despencou a marquise. Klaus quase vomitou ao ver um grande pedaço de cérebro a uns dois metros. A mão de Hilton largou a boca da arma e o jovem saiu, sem rumo…

“Teria sido pior se tivesse que fazer isso com Marina”. O armazém estava logo à sua frente, ou melhor, o que restou dele. Um forte estrondo fez-se ouvir ao norte. Possivelmente a quarenta, cinqüenta quilômetros… Não tardou, uma coluna negra foi subindo no horizonte daquele lado. Klaus tinha invadido uma loja de armamentos e pegara para si mais de trezentos cartuchos. Levava-os numa mochila à parte. Tinha outra cheia de comida, que pegara num supermercado em ruínas. Entrou no perímetro do armazém e recostou-se à uma parede. Sua mente viajou por alguns instantes e não tardou pegar no sono, para nunca mais acordar.

A Capital é enorme, e enorme é a tristeza de Klein. “Como tudo pode ser tão grande e tão pequeno, ao mesmo tempo?”, pensou, sentado à janela do décimo quinto andar. De seu cubículo, olhava os carros lá embaixo, indo e vindo. Tinha acabado de ler o primeiro livro da famosa trilogia de Tolkien e tinha chorado em diversas passagens… “Não era pra tanto”, pensava, “mas tinha alguma coisa ali”. Há diversos mundos neste nosso mundo, todos feitos pelas mesmas partículas elementares, mas num dia a gente ri, no outro a gente chora… Ele não queria que tudo fosse igual. Mas por que o equilíbrio era algo tão distante, já que, no fundo, no fundo, tudo é feito da mesma merda primordial? Talvez o problema estivesse em se se sentir uma merda… algo que ele conhecia muito bem. No dia anterior, sua namorada, ou melhor, sua ex-namorada dissera: “Cresça!”, e saiu, deixando-o com um meio sorriso, plantado no meio da sala. Klein não teve reação. Ela estava certa. Ele precisava crescer mesmo, mas não queria. Quantas vezes ele ouviu esse “CRESÇA!”, da boca de várias outras garotas? Parecia até piada. Tinha acabado de comprar um vídeo-game de última geração, que Rose odiava. “Não sei como você suporta essa droga”, disse ela, certa feita, enquanto lixava a unha e via TV. “Você está vendo o quê?”, perguntou ele. Ela nada disse, afinal, o programa que Rose assistia era muito pior que os tiros que Klein disferia nas criaturas do planeta X-09K/612 e que acabavam de invadir uma das bases instaladas na nossa lua. Mas ela não suportou muito, não suportou que Klein bebesse, por exemplo… “Pare de beber”, disse ela. “Vou tentar”. “’Tentar’ não, vai parar!” Klein já tinha passado dos trinta, não tinha conseguido nada, só um empreguinho fodido numa loja departamentos. Não tinha mais nem pai, nem mãe. Nada lhe fora deixado quando morreram (seu pai deixou-lhe o gosto pelo álcool). Sua sorte foi ter lido uns dois ou três livros na adolescência. O que também não o salvou da beira do abismo onde se encontrava. “Talvez fosse melhor não pensar”, costumava dizer a si mesmo. Mas ele não parou de beber. E Rose pegou as coisas dela e se foi… Foi-se muito simplesmente. Fato engraçado: a mesma Rose namorara um deputado que todo mundo sabia ser viciado em coca e em espancar mulheres… O deputado que terminou com ela, ELE QUE TERMINOU… Klein sabia disso, um monte de gente sabia, vários amigos deles sabiam. Rose fora sua colega de colégio e eles possuíam amigos em comum. “Ela é interesseira cara”, dissera-lhe um camarada, “não sei como ela está contigo”. “As pessoas mudam…” “Mudam nada, ela vai é te meter o pé na bunda, na primeira oportunidade. Ela tá dando um tempo, recarregando as baterias; quando aparecer outro figurão, Rose some que nem névoa” “Você sempre se achou o dono da razão” “O cuzão a espancava e a entupia de  coca todo dia,  trepava com os viados na frente dela… essa mulher implorou pra ficar quando o sacana não mais a quis… e ele tome-lhe socos e pontapés, jogou-lhe as roupas na calçada e umas notas de cem reais… todo mundo sabe dessa história. VOCÊ sabe! Se liga, meu irmão! A mulher é a maior bandida!” “Vá se foder…” Hoje, Klein lembrava dessa conversa e passava a mão pelo queixo. A barba estava por fazer. “Ela toleraria minhas cervejinhas se eu tivesse uma grana a mais”, pensou, olhando os carros passando na avenida abaixo. “Isso é grave, muito grave” “Quantos metros são quinze andares? Será que dá pra morrer legal, se chegar lá embaixo?” Klein tinha ouvido falar nas clínicas de suicídio, mas tudo parecia ainda lenda urbana… Porém, algo lhe dizia que dentro em breve elas se popularizariam. Que homens de bem poderiam pagar para ter uma morte suave, como os grandes assassinos em série. Klein suspirou de saudade de Rose, da mulher que não valia nada,  – ou muito pouco  – e um pensamento aterrorizante perpassou por sua alma: o que valeria mais, na frágil balança de sua existência? Seu novo vídeo-game, ou Rose? E ele, tristemente, naquele exato momento, percebeu como uma pessoa pode valer menos que um objeto que se pode comprar na loja da esquina… Mas isso é culpa de quem? Provavelmente de Deus, ora bolas… Klein subiu no parapeito da janela e se atirou não pela saudade de uma prostituta (saudade essa que existia, de fato), ou pela vergonha ou pela solidão propriamente dita, ele se jogou porque estava cansado de perguntas sem resposta… só, isso e nada mais.

O grande dia chegou. Léo estava excitado, de fato. Não foi para o trabalho. Sequer disse nada ao pessoal. Apenas não foi. A única pessoa que sabia o que ele haveria de fazer naquela segunda-feira era Carla, a garota do almoxarifado – que todo mundo na empresa (até uma supervisora) comeu, inclusive ele. Mas entre eles o lance era diferente. Rolava algo muito próximo do amor. E Carla gostava tanto de Léo que, muito embora ela desaprovasse o que iria acontecer naquela manhã com o amigo de trabalho e de cama, ainda assim ela procurou compreender. No íntimo não aceitou, mas procurou compreender. Era nela que Léo pensava naqueles últimos instantes, sentando em sua cama, encarando o chão. Tinha tomado uma boa dose de benzodiazepínico com álcool, para aliviar um pouco a tensão. Daqui a poucos instantes pegaria o metrô para a clínica. O metrô passava a algumas centenas de metros do cubículo onde morava. Olhava para o relógio, e aqueles eram os últimos momentos que faria aquilo na sua vida. O telefone tocou. “Deve ser o pessoal da empresa”, pensou. Léo adorou não ter que pegar o gancho… mas… bom, podia ser outra pessoa. “Sim”, pensou, “e se for outra pessoa?” Léo estendeu a mão e pegou o fone. Era Carla. Ela chorava.

-Você vai levar isso adiante? – disse ela.

-Vou Carlinha. E mesmo que quisesse voltar atrás, já paguei a maior grana.

-Você só precisava de uma mulher, Léo, uma mulher bem bacaninha… Tipo eu, assim…

Ambos riram.

-Mas é sério – continuou Carla -, um amor resolve muitas coisas.

-Você tem um amor? – perguntou Léo, num tom meigo, mas ao mesmo tempo mordaz.

-Não… – disse ela titubeando.

-Você só quer foder, Carlinha, e fica falando em amor. Eu gosto de você, mas a gente nunca ia dar certo.

Houve uma pausa do outro lado. Em seguida, Carla disse:

-No dia que eu achar um cara bacana eu me conserto.

-Toda puta fala isso.

-Eu não sou puta, putas cobram. Eu transo por gosto.

-Tá, tudo bem, você entendeu.

Outra pausa.

-Não faça isso Leozinho, por favor, vou sentir tanto sua falta… seu jeito, suas piadas, essa sua cara de sono, de falta  de gosto como tudo… isso me deixa tão molhadinha… kkkkkkk…

-Você ficará molhadinha por outras razões, umas tão nobres quanto, outras nem tanto.

-Nossa, esse seu humor é tão refinado, é tão gostoso… Não se vá, meu lindo, não se vá.

Léo suspirou do outro lado da linha. Carla era uma mulher de sexualidade plenamente amadurecida, repleta de artifícios, dotes, mandingas, magias, amuletos e outras coisas mais. Ela adorava deixar os cabelos pretos caírem até o meio das costas. Tinha a pele branca, olhos azuis e lábios grandes e finos. Seus quadris eram largos, mas bem proporcionados. Léo sentiria falta de a segura-los nus, com força, durante o amor. Em compensação seu seios eram diminutos, muito pequenos, pequenos botões cor-de-rosa. Ela usava os mesmos sutiãs de sua prima de onze anos de idade.

-Vou sentir sua falta, lá onde eu estiver – disse Léo engolindo em seco.

-O que eu não faria pra você mudar de idéia.

-Você é especial, minha gostosa… Continue dando bem essa sua buceta, que você será uma mulher muito feliz.

Riram.

-Mas é preciso que eu parta – disse Léo, batendo o telefone após consultar o relógio.

O aparelho tocou até ele tomar a rua. Carla largou as incumbências do almoxarifado e saiu.

Léo vestiu seu casacão. Fazia frio. Andou meia hora até o metrô. Quando lá chegou, viu Carla.

-O que você faz aqui? – perguntou ele, muito naturalmente.

-Posso te dar um abraço? – ela soluçava. – O último?

Léo, sem nada dizer, foi até ela. Abraçaram-se por um longo tempo. Tempo suficiente para o metrô chegar.

-Já vou – disse ele.

-Não, meu amigo, não vá, por favor…

-Vou, garota. Tenho que ir.

Finalmente, Léo entrou no metrô, a caminho da clínica de suicídio, onde tomaria uma injeção letal, paga vários meses antes. Aquela era uma febre que se estendia de ponta a ponta do globo. Milhões e milhões de pessoas, por todos os cantos, pagavam pequenas fortunas para deixar de viver através de uma injeção letal, algo que, nos primórdios se era reservado apenas aos piores bandidos. Carla chorou naquela tarde, pelo seu amigo Léo, e mais ninguém. E o mundo seguiu, sem Léo, sem sentir sua falta, sem que nada, absolutamente nada, ficasse diferente.

Ultimamente tenho sido acometido de pesadelos que me fazem gritar durante a noite. Não lembro dos sonhos, mas uma moça ruiva… bom, onde estará ela? Ela diz que grito pavorosamente… Ontem, pouco depois de despertar, ouvi algo, uma voz, aparentemente humana, mas não entendi o que ela disse. Aquela voz pareceu sair de algum lugar perto do meu ouvido direito. Estava acordado, plenamente desperto, mas não senti medo, apenas uma leve ponta de surpresa. Tenho dois amigos que enlouqueceram… muito, mas muito facilmente; da noite para o dia. Estão completamente alienados, mas me reconhecem, sim, me reconhecem, e isto é perturbador. Ser visto e reconhecido pelos olhos de um demente. Diante de suas feições tornadas insanas, de seus dentes podres, de sua pele imunda e fétida, estremeço. Mas este tremor vem de um medo não tão profundo, mas pungente: o medo de terminar como eles. Minha casa fica isolada de tudo, e isto tem me dado certo conforto. Dou graças por poder estar aqui neste outeiro, quase completamente só. E a ruiva?… ela “dorme” num anexo – o que não a impede de ouvir meus gritos. Mas o isolamento também agride. Penso em meus amigos e os vejo completamente sós, em sua doença. Mas até que ponto estão completamente sós? Se os vejo falar, falar e falar, enquanto andam sem rumo, quase sempre à noite. Até que ponto sofrem? Até que ponto podem ainda ser considerados pessoas? Esta casa fica fora do perímetro urbano, como disse, num monte, num amplo terreno cercado de árvores de diversos tipos. Já sonhei com esta casa, sim, sonhei algumas vezes, muito antes de vê-la, muito antes de vir pra cá. Quando entrei aqui, pela primeira vez, senti uma grande familiaridade. Mas isso só fez aumentar meu estado de desarranjo espiritual. Sinto que posso enlouquecer, verdadeiramente… Há duas semanas, durante a madrugada, ouvi sons de cascos no corredor que liga meu quarto à sala, onde uma das lâmpadas do lustre estava ligada. Desde de pequeno aprendi a dormir assim, com a porta do quarto entreaberta e uma luz fraca ligada fora do quarto. Foram sons de cascos que ouvi. Cascos de animal pisando no azulejo do corredor. Eu jazia completamente enrolado na coberta de lã, em decúbito dorsal. Meus olhos estavam abertos, duros, mirando o teto. Eu apertava o pano próximo ao pescoço e sentia todos os músculos de meu peito travados. Os cascos subitamente pararam e escutei o ranger da porta que se abria lentamente. Uma luz mortiça, amarelada, inundou todo o quarto e os sons de cascos voltaram… aproximando-se de minha cama. Lágrimas desceram de meus olhos e meus dentes travaram quase a ponto de quebrarem-se. E não era o som de minha respiração que eu ouvia, e sim da coisa postada então logo ao lado de minha cama. Ela respirava ruidosa e lentamente. Os pelos de minha nuca se eriçaram, mas virei o rosto. Não sei como encontrei coragem para fazê-lo, só sei que ao me virar dei de cara com a moça ruiva. “Senhor R***, Senhor R***, acorde, o senhor está tendo um pesadelo”, dizia ela… Hoje procurei-a por toda a propriedade e não a achei. E pela primeira vez, desde que me mudei para cá, tomei a liberdade de abrir a porta do seu quarto, no anexo, e pasmei ante tamanha bagunça e sujeira. Não havia sequer uma cama, nem um armário, nem nada… Só ferramentas velhas, trapos sujos e pedaços de madeira informes! Quantas vezes a vi sair e entrar dali? Dezenas e dezenas de vezes. Mas por que tenho a estranha sensação de que fui enganado brutalmente pela minha mente? Onde estará ela, agora? Quem será ela? Neste exato momento, percebo meu peito apertar. Olho para o criado mudo, aqui ao meu lado. Há ali um revolver… e, a ambivalência do terror e da paz inundam minha alma – certamente, já plenamente enlouquecida – ante a possibilidade de deixar esta existência instável e ingrata. Grito pelo nome da ruiva… grito mais uma vez, três, quatro vezes… nada… Seria eu capaz de dar um braço para vê-la entrar por esta porta! Mas seu quarto! Nossa! Aquilo não é, nunca foi um quarto! E grito mais uma vez, e outra e mais outra…

Não sou do tipo que morre de amores por histórias de vampiros, mas resolvi escrever uma.

Norman olhou o revolver sobre o criado mudo e sentiu uma onda de arrepio atravessando-lhe as costas. O tiro tinha sido perfeito. Ninguém vira, ninguém ouvira, tinha certeza. O estampido de um trinta e oito não era, decididamente, como um galho se partindo, mas algo lhe protegera naquela missão. Aquilo tinha de ser feito e foi feito. Seu coração parecia estar “mole”, então, após ter batido descompassado e frenético nas últimas horas. Agora, ali sentado à janela, tudo parecia como um sonho, nem bom, nem ruim. Sua avaliação de si mesmo? “Sou um herói”. Há duas semanas encostara o cano daquele mesmo revolver no próprio palato e algo sussurrara em seu ouvido para não puxar o gatilho. Suou frio e tremeu. O cão não estava puxado, para sua sorte, pois lançara a arma longe, e ela tombou, com um baque surdo, perto da parede fronteira. Logo ao lado, na cama, viu a caixa com anti-depressivos. Havia ali ainda quatro comprimidos. Sábado abriria a outra caixa. Todo mês era assim, uma porra de um remédio que levava quinze por cento do salário. Sentia-se viciado. Precisava daquilo se não quisesse se parecer com um verme. Pessoas importantes como o Vampiro o tinham como um verme. Zelda do almoxarifado vinha dormindo com ele, todo mundo sabia. O Vampiro, um capetinha do Inferno, um “diabretezinho menor” bem ordinário, mas que sabia hipnotizar os trouxas, costumeiramente levava os babacas na língua, menos Norman, que conhecia sua condição plenamente – percebera sua cútis branca e seus caninos agudos logo de início, sua aversão a locais abertos de dia. Mas nada se comparava aos seu olhos quase completamente negros. Não era a primeira vez que o Vampiro se deparava com alguém como Norman, mas, tradicionalmente vencia pessoas assim – e seu erro foi acostumar-se a subestimar qualquer um. “Os vermes foram feitos para serem esmagados”, diziam seus olhos quando cruzavam com os dele. Um sorriso sarcástico era como a cereja no topo do monte de creme branco e enjoativo. Norman jamais se pegara tão ameaçado. Foi preciso pensar, pensar muito. A solução veio. Mas não foi fácil, como quase tudo na vida. Estudou os hábitos do Vampiro, a hora e como saía e entrava de casa. Teve que aprender também a manusear a arma. Havia apenas uma bala de prata, pura, encomendada na mão de alguém de confiança. “Atire na testa, bem no meio”, disse o homem. “Aproxime-se o máximo que puder e dispare na testa”. “Balas de prata não são para lobisomens?”, disse Norman em sua ignorância. “Vampiros e lobisomens são os mesmos tipos de filhos da puta”, disse o homem. “Quanto lhe devo pela bala?”. “O único pagamento para um artefato como este, é usá-lo com presteza”. Norman saiu na noite fria, ao encontro do seu destino. Parou atrás de uma árvore a uns cem metros da casa onde seu alvo residia. Ficou ali, imerso na penumbra, desviando das luzes esporádicas dos carros, como um vagabundo qualquer, esperando o diabrete chegar da farra. Finalmente, por volta das três da manhã, a caça chegou. Estava só, ao volante. Norman correu até o carro e bateu no vidro. O Vampiro vacilou por um instante, mas conheceu o “vermezinho” que seria esmagado em breve, e com seu costumeiro sorriso sarcástico desceu o vidro. Ia falar algo, mas a bala de prata irrompeu através do curto cano de ferro indo de encontro à sua pálida testa. A cabeça deu um tranco violento para trás junto com pedaços de ossos, pele, músculos e tufos de fios de cabelo. O tiro não podia ter sido mais preciso e poderoso. Norman correu pela madrugada. Sabia que não houvera testemunhas. Estava certo disso quando entrou no cubículo em que morava, o coração a querer sair-lhe pela boca. Chegou a ficar tonto. Pôs a arma sobre o criado mudo e sentou-se à janela, arfante, esgotado, mas sem o menor vestígio de sono. Seu coração foi amainando aos poucos, mas o sono não chegou nem chegaria. Veria, de sua janela, o dia nascer, e assim haveria de encarar o dia e os repetidos comentários: “Mataram o chefe”.

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Tudo bem, tudo bem… eu sei que é um lugar-comum desgraçado e tal, mas eu não podia deixar de registrar aqui no blog algumas impressões sobre essa obra simplesmente linda. Quando eu era guri, (na verdade um super-guri beirando a inconsciência) assisti o filme. Tenho umas imagens vagas na minha cabeça. Lembro bem de Gene Wilder fazendo a raposa… e só… rsrsrsrsrsrsrsrsrs… É claro que lembro do Pequeno Príncipe – um guri louro e guri. Mas os guris louros guris de filmes são todos iguais e assim dá tudo no mesmo. Mas isso não importa. O filme ficou como uma névoa na minha combalida cachola. Um amontoado sem sentido de imagens que sozinhas não significavam nada – embora houvesse, lá longe, um sentimento estranho relacionado a elas (mas não sei bem que sentimento era, então não importa). Bom, então eis que leio o livro nesse São João. Puxa… eu tava precisando de um troço assim, sabe… Não passava por minha cabeça que esse livrinho pequenininho pudesse guardar tanta coisa boa junta. O povo tem a mania de exagerar às vezes e a gente tende a ficar desconfiado e tal… mas a verdade é que o que se fala é pouco. Antoine de Saint-Exupéry é um gênio, na verdade. E não é um gênio por ter escrito “O Pequeno Príncipe”. Uma história como essa poderia ser inventada por qualquer pessoa com alguma sensibilidade e amor no coração. O problema é em como a história é contada. Eu posso falar do amor com mil palavras, mas alguém pode dar um jeito de arrumar umas quinze ou vinte e ser muito mais pungente e belo. Esse é o maior mérito, na minha tosca opinião. Não há muitas novidades nas páginas de O Pequeno Príncipe, mas coisas antigas foram decodificadas de modo tão magistral que entram direto no seu coração e são capazes de arrancar lágrimas até de um hipopótamo. Leiam.

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Lolita, de Vladmir Nabokov, é um bom livro, mas também não é pra se fazer tanto alarde assim. A primeira parte é muito boa. Mostra o pedófilo Humbert em sua luta encarniçada para conquistar o coração de sua garotinha. A trama, até aí, é bem agradável. Você sente ódio do cara e fica com pena da guria, mas depois a gente vê que o buraco é mais embaixo, que a coisa, quando rola sentimento, é bem complicada. O próprio personagem fala algo interessante, do tipo: se um menino de doze anos se apaixona por uma menina de doze anos, isso é totalmente diferente de um homem de sessenta que se apaixona por uma menina de doze… Isso nos faz refletir e pensar num lance mais ou menos desesperador, digo… desesperador para os homens – mas pode ser para as mulheres, também. A gente fica velho… o tempo passa, nosso físico vai se perdendo, nossa beleza… um dia, se tudo der certo (ou errado), seremos senhores e senhoras, e aquelas gatinhas e gatinhos serão como estrelas no céu – tão lindas e tão distantes… e a gente, como Tântalo, só vai poder olhar… a não ser que se seja Humbert… eis aí o “X” da questão. O pecado dele foi querer uma criança, praticamente. Mas mesmo que ele desejasse uma mulher de vinte, ainda assim seriam mais de quarenta anos de diferença. A verdade é que o cara gastou a maior grana pra agradar Lolita. Ele fazia todas as vontades dela, e, num dado instante, isso foi o que manteve por algum tempo ainda o romance… que já nasceu para ser sufocante e desesperador. O que um velho quer, dificilmente vai ser o mesmo que uma garota quer e um vai odiar o pique do outro. Se a gente pensar que romances entre pessoas jovens e bonitas quase sempre acabam na vulgaridade e na mesmice, em brigas, desentendimentos, imagine entre um sexagenário e uma pré-adolescente. Isso é pra refletir… estamos envelhecendo e os nossos parceiros também, mas a todo instante está surgindo gente nova, interessante, bonita (assim como gente feia e antipática, decerto – em maior número, por sinal)… Deste modo, o livro é ótimo até aí. Mas a segunda parte é muito grande, chegando a ser prolixa. Há quem goste… Quem aprecia J. Joyce com toda aquela chatice de “fluxo de consciência” vai adorar. Há momentos também extremamente descritivos (sacais) que nos remetem aos livros de José de Alencar (o seboso). Dou nota oito pra Lolita (a primeira parte puxou bastante a média pra cima).

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Holly Golightly é o nome da personagen de Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany’s ou Bonequinha de Luxo como ficou aqui conhecido o filme. Holly é uma garota interiorana, de passado bem curioso, que vai pra capital (Nova Iorque) a sai fazendo detono com a galera de lá. Ao meu ver, um dos maiores méritos desse filme (livro, conto, sei lá…) é mostrar como o homem (ser humano do sexo masculino) pode ser fraco e ridículo. Só poderia ser escrito ou por uma puta ou um viado (Truman Capote o era e o fez). Não pensem que sou preconceituoso, mas existem diferentes níveis de sensibilidade que somente pessoas com determinadas características podem alcançar. Se Truman fosse hétero, certamente ele tiraria boa parte do “poder bucetal” de Holly, que era uma garota de programa, e das boas. Isso seria falso, na verdade, e o romance não teria o alcance que teve, nem a pungência. Tenho que admitir que este foi o único filme que assisti de Audrey… mas… bom, na verdade foi suficiente pra ver que além de exuberante ela era talentosa pro cacete. Prefiro Shakira mil vezes na cama do que ela, mas acho que o papo com Audrey seria melhor… Será? Olhe, ouvi dizer que Shakira é espertinha, viu… segundo o Wikipedia … Shakira Isabel Mebarak Ripoll (Barranquilla, 2 de Fevereiro de 1977) é uma cantora e compositora colombiana vencedora de dois prêmios Grammy. Seu prenome em árabe significa graciosa. Fala fluentemente várias línguas, como inglês, árabe, português (com sotaque brasileiro), francês e espanhol, a sua língua materna. É também dançarina de dança do ventre, que aprendeu com a sua avó libanesa… Eu pagaria pau pras duas, pena que uma esteja morta e a outra… bom, a outra é foda!!!!